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Sou fanático pelo Grêmio!

Edson Berwanger | 06/10/2008

Sou fanático pelo Grêmio. Tá, tudo certo, mas até aí não há nada de mais, pois todo gremista que se preze é fanático pelo Grêmio. Qual a diferença então? Fanático e o que mais? Bom… sou fanático e supersticioso! Serve?

Não. Pois todos que são fanáticos têm mania disso, mania daquilo…

Mais alguma coisa?

Creio que sim….

1996… Mais um ano emblemático na história do Grêmio e na “Era Felipão”. Vínhamos de uma segunda divisão naquele fatídico ano de 1991. Na volta havíamos conquistado a Copa do Brasil de 1994, a Libertadores e o vice-mundial em 1995. Ninguém esperava mais nada, mas o Grêmio era guerreiro e caminhava a passos largos rumo ao título brasileiro daquele ano.

Independente das perspectivas e expectativas, algo de errado acontecia… todo o jogo que assistia no Olímpico ou acabava empatado ou o Grêmio perdia… foi assim nas rodadas finais daquele brasileiro.

A cada novo jogo no nosso estádio tinha mais certeza de que os maus resultados estavam acontecendo por culpa exclusiva minha, mas fui insistindo.

Passaram-se as oitavas, as quartas, a semifinal e, então, a grande final: Portuguesa x Grêmio, Grêmio x Portuguesa - dois jogos que prometiam ser eletrizantes - A “Namoradinha do Brasil” contra o “Glorioso da Azenha” - um país contra o Grêmio! Acabamos perdendo o primeiro jogo por 2 x 0 no Morumbi e ali começou o meu dilema.

“O último e mais importante jogo do ano, justo no Olímpico e ainda precisando ganhar por dois gols de diferença! Vou ou não vou? Vou ou não vou? É FINAL DO BRASILEIRÃO! Tenho que ir! Mas se eu for, será que seremos campeões? Eu estou muito pé-frio… acho melhor não ir, vou me sentir culpado se perdermos. É isso, NÃO VOU!”

Decisão absolutamente tomada. Naquele ano assistia aos jogos da social, não tinha cadeira. Assim, para garantir que não ia ao Estádio, parti em minúsculos pedaços meu cartão social na frente de todos os meus amigos, que riam da minha cara como se aquilo que eu fizera fosse o maior absurdo da paróquia. NÃO ERA! Se fosse ao jogo não seríamos campeões, tinha certeza!

Não bastava só quebrar o cartão, não poderia também assistir pela TV, tampouco ouvir o jogo pelo rádio… a possibilidade da derrota era grande. Não pensei duas vezes… quebrei meu rádio também.

Quem me garantia que eu não assistiria? Só eu mesmo poderia garantir isso (mas não precisei quebrar mais nada). Peguei o jornal de domingo, folhei cuidadosamente as páginas do caderno de cinema e acabei achando um único filme que passaria no horário do jogo… Um herói de brinquedo, com Arnold Schwarzenegger, dublado, no já extinto cinema do shopping iguatemi.

O jogo começaria às 16h, o filme às 16h10min… A sua duração seria em tempo suficiente para que acabasse o jogo e eu não escutasse ou soubesse de nada… ledo e sofrível engano…

Entrei na sala de cinema às 15h55min, pensando que lá estaria imune de qualquer acontecimento, já que a sala, em tese, teria acústica privilegiada… erro número 1… dava para escutar tudo!

Além desse erro que não era previsível, cometi outros pequenos erros nessa história toda. Logo ao chegar, no meu trajeto da entrada do cinema até a cadeira que iria abrigar meu suplício, vi que o lanterninha (ainda existia essa figura) portava um rádio consigo… um enorme rádio toca-fitas amarelo que certamente estava sintonizado em uma rádio que transmitiria o jogo…

Na sala de cinema eu e mais 4 pessoas… uma delas com a camiseta do Grêmio… Já passava das 16h10 e nada do filme começar… nesse meio tempo um foguetório incrível - como disse, dava para escutar tudo na sala… pelos meus cálculos não era à entrada do Grêmio em campo, a essas alturas o jogo já havia iniciado… lembrei que o lanterninha estava com o rádio toca-fitas amarelo… fui direto até ele. O desgraçado (coitado) estava cabisbaixo, moribundo… mesmo assim fui até lá e perguntei:

- O QUE ACONTECEU, O QUE ACONTECEU???!!!

Ele com uma voz de “pacato” respondeu: Paulo Nunes, 1 x 0…

Explodi de alegria, voltei para a sala correndo e gritando, os outros todos comemoraram… Sim, as outras 4 pessoas na sala eram gremistas (não me perguntem se estavam ali por se sentirem pés-frio que eu não sei).

Depois disso FOI O FILME MAIS LONGO QUE JÁ ASSISTI EM TODA A MINHA VIDA… Mas meu castigo não terminava por aí…

Consegui resistir até o final, como planejei, no decorrer do filme não deu para escutar mais a movimentação da rua… era somente o som do filme e um teste para os nervos inimaginável. Acabei com todas as unhas da mão… Ainda não havia celular na época, então a informação era bem difícil… não sabia mesmo o que estava acontecendo.

Ao terminar o filme saí disparado como uma fecha. A primeira pessoa que encontrei foi o flanelinha secador, e novamente lhe questionei:

- E ai, já acabou?

Ele já com uma voz de satisfação respondeu prontamente:

- Não! São 35 minutos do segundo tempo e segue 1 x 0.

Outro erro, pois calculei mal o tempo de duração do filme.,.

Então corri, corri, corri… com os olhos marejados porque tudo o que planejara havia dado errado, mas já que tudo estava errado então precisava ouvir o final do jogo. Cheguei no meu carro (tinha um Voyage bordô 1990) e liguei o rádio. Lembro da voz do Pedro Ernesto gritando: “Ainda dá torcedor do Grêmio, ainda dá. Acredite! São 37 minutos do segundo tempo e o Grêmio precisa de só um gol!”

Começo a não lembrar com precisão dos acontecimentos seguintes, mas ainda lembro perfeitamente da narração:

- Carlos Miguel domina a bola na intermediária do Grêmio, pára, olha e lança. Zé Afonso está na área, domina a bola… vem Ailton chuta e é GOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!!!!! GOOOOL DO BICAMPEONATO!!!!!

Daí pra frente minha memória me trai… não sei o quê e como tudo aconteceu, mas uma única coisa eu tenho certeza:

GRAÇAS A DEUS QUE SOU GREMISTA!!! FANÁTICO, SUPERTICIOSO E MALUCO!!! É ISSO, MALUCO POR ESTE GRÊMIO, MALUCO PELO IMORTAL TRICOLOR!

Pé-frio? Isso eu não sei, mas ainda bem que preferi não arriscar!